‘Não adianta o agro ficar torcendo contra o Lula’, diz futuro presidente da Aprosoja
O futuro presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Luiz Pedro Bier, defendeu que o agronegócio deixe de lado as divergências ideológicas e busque uma relação de diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito para mais quatro anos à frente do Palácio do Planalto. Em entrevista ao PodOlhar, videocast do Olhar Direto, Bier reconheceu que existe resistência ao petista dentro do setor produtivo, mas afirmou que o momento exige conciliação para enfrentar a crise financeira que atinge os produtores rurais.
“Não adianta o setor ficar torcendo contra o Lula. Se o Lula fizer burrada, o juro sobe. Quem paga é todo mundo, o país inteiro”, declarou o atual vice-presidente da Aprosoja, que encabeça a chapa única para comandar a entidade no triênio 2027/2029.
Durante a conversa, Bier também foi questionado sobre a associação da Aprosoja com o bolsonarismo e as críticas de que a entidade teria se afastado de sua atuação técnica para assumir posições político-partidárias. Ele discordou dessa avaliação em relação à atual gestão, embora tenha reconhecido que houve períodos de maior proximidade com a direita.
“Eu acho que existiram momentos que sim, mas esses momentos já fazem seis anos que você teve uma ligação mais intrínseca entre a direita e a Aprosoja. Nos últimos anos, a Aprosoja tem atuado exclusivamente a favor do produtor”, afirmou.
Para o dirigente, as preferências políticas individuais dos integrantes da associação não podem interferir na relação institucional com os governos. Ele destacou que, independentemente do resultado das eleições, a entidade precisa manter canais de negociação para defender os interesses dos associados. “Quando eu visto a camisa da Aprosoja, não tem direita, não tem esquerda”, resumiu.
Bier também avaliou a declaração de Lula, feita durante a campanha eleitoral, de que o agronegócio deveria “se ajoelhar” diante dos investimentos realizados pelo governo federal. O futuro presidente da Aprosoja classificou a fala como infeliz, mas ponderou que o setor e o governo dependem um do outro para superar as dificuldades econômicas.
“Para o Lula ir bem, para o Lula tirar o país do buraco, ele vai precisar do setor. E para o setor sair do buraco, a gente vai precisar do governo federal”, disse.
Crise no campo e risco de falência
Além da política, a entrevista aborda a situação financeira dos produtores de Mato Grosso, marcada pelo aumento dos custos de produção, juros elevados, dificuldades de acesso ao crédito e incertezas climáticas para a safra 2026/2027.
Segundo Bier, o endividamento rural chegou a um ponto em que até produtores com atividades economicamente viáveis encontram dificuldades para financiar o plantio. Isso ocorre, principalmente, porque os bancos passaram a exigir garantias patrimoniais que muitos agricultores não conseguem oferecer.
O dirigente criticou as medidas de renegociação de dívidas apresentadas pelo governo federal, afirmando que as taxas de juros e os critérios de enquadramento impedem que grande parte dos produtores seja beneficiada.
Como alternativa, defendeu a criação de um fundo garantidor, com participação pública e privada, para facilitar o acesso ao financiamento rural. A proposta, segundo ele, já foi discutida com representantes dos governos estadual e federal.
Bier também demonstrou preocupação com os efeitos do fenômeno El Niño sobre as lavouras mato-grossenses. Embora não tenha identificado grandes prejuízos até o momento da entrevista, alertou que a instabilidade das chuvas pode comprometer a produção em um período de fragilidade financeira.
“O produtor mato-grossense não tem condição de aguentar uma quebra de safra nesse momento”, afirmou.
Ao comentar a combinação de juros elevados, endividamento, custos de produção e riscos climáticos, o dirigente classificou o cenário como uma crise que vem se agravando nos últimos anos. “Parece que o tempo passa e a tempestade só piora”, lamentou.
Fethab, ostentação e sucessão na Aprosoja
Outro assunto abordado no PodOlhar foi o fim da cobrança do Fethab II, anunciado pelo governador eleito Otaviano Pivetta (Republicanos) para 2027. Bier defendeu a medida, argumentando que o setor não tem condições de suportar a tributação adicional diante das dificuldades financeiras.
Ele reconheceu a importância dos investimentos públicos em infraestrutura e citou a própria experiência em Gaúcha do Norte, onde ainda enfrenta problemas com estradas sem pavimentação e pontes danificadas para transportar a produção.
Apesar disso, sustentou que a situação econômica dos produtores exige a redução dos custos neste momento. “A conta já não fecha”, afirmou, ao defender o encerramento da cobrança.
O futuro presidente da Aprosoja também contestou a imagem de riqueza frequentemente associada ao agronegócio nas redes sociais. Segundo ele, a exposição de caminhonetes de luxo e de um estilo de vida marcado pela ostentação não representa a realidade da maioria dos agricultores de Mato Grosso.
“Não é tanto a agrostentação assim. Isso tem, mas são menos”, declarou, ao descrever o perfil de produtores que trabalham diretamente nas propriedades e enfrentam dificuldades semelhantes às de outros setores da economia.
Na entrevista, Bier ainda fala sobre sua trajetória na Aprosoja, iniciada em 2015, a experiência como delegado do núcleo de Gaúcha do Norte e a participação na atual diretoria, presidida por Lucas Costa Beber.
Candidato à presidência da entidade, ele lidera a chapa Aprosoja Decidida, que tem Diego Francisco Bertuol como candidato a vice-presidente. A eleição está marcada para 9 de novembro e mais de 9 mil associados estão aptos a participar da escolha dos representantes para o triênio 2027/2029.
Além das relações entre o agronegócio e os governos Lula e Pivetta, a conversa aprofunda os desafios da próxima gestão da Aprosoja, as propostas para enfrentar o endividamento rural e as perspectivas para a produção agrícola de Mato Grosso nos próximos anos.
Por PodOlhar




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