“Não sou apenas um número”: memorial em Mato Grosso devolve nome, voz e memória às vítimas de feminicídio
Por trás de cada número das estatísticas de feminicídio existe uma história interrompida, uma família marcada pela ausência e sonhos que nunca puderam ser realizados. É justamente para romper com a frieza dos dados e devolver identidade às vítimas que nasceu o espaço “Não Sou Apenas Um Número – Em Memória Delas”, um memorial dedicado às mulheres vítimas de feminicídio em Mato Grosso.

Mais do que reunir informações sobre os crimes, o projeto preserva aquilo que a violência jamais poderá apagar: as lembranças de quem essas mulheres eram. Os relatos são escritos por mães, filhos, irmãos e outros familiares, que compartilham memórias, histórias de afeto, sonhos e conquistas interrompidas.
Cada depoimento reafirma que as vítimas não podem ser reduzidas a processos judiciais ou manchetes policiais. Eram filhas, mães, irmãs, estudantes, profissionais, amigas e mulheres que planejavam o futuro.
Histórias que permanecem vivas
Kelma Dias da Silva

Aos 39 anos, Kelma Dias da Silva é lembrada pelo filho caçula, Victor Hugo Dias Ribeiro, como uma mulher alegre, carinhosa e dona de um sorriso capaz de transformar qualquer ambiente. Segundo ele, sua mãe tinha o dom de fazer as pessoas rirem mesmo nos momentos difíceis e deixou ensinamentos que permanecem vivos na família.
Kelma deixou dois filhos, hoje com 20 e 26 anos. Foi vítima de feminicídio em 11 de novembro de 2024, em Diamantino. O autor foi condenado a 40 anos, dois meses e 12 dias de reclusão pelos crimes de feminicídio e ocultação de cadáver.
Viturina Ares Cebalho

A irmã Neuza Ares Cebalho recorda Viturina como uma mulher divertida, trabalhadora e inteiramente dedicada aos filhos. “Foi uma excelente irmã, companheira e amiga”, resume.
Viturina tinha 48 anos e foi assassinada em 17 de fevereiro de 2024, em Cáceres. Deixou dois filhos menores de idade, atualmente criados por uma tia. O responsável pelo crime foi condenado a 13 anos e quatro meses de prisão.
Regina Fortunatto Quirino Araújo

A memória de Regina é reconstruída por diferentes vozes da família. A filha Bruna Geovana lembra da mãe sentada na varanda fazendo crochê e organizando pescarias em família. A sobrinha Edilayne recorda que Regina era como uma segunda mãe. Já as irmãs Sidneia e Sônia destacam sua alegria, força e dedicação aos filhos.
Regina foi morta aos 34 anos, em Sinop, no dia 21 de setembro de 2024, deixando três filhos.
Maylla Rafaela Martins

A irmã Letícia Martins da Silva descreve Maylla como uma jovem sonhadora, intensa e profundamente ligada à família. Mulher trans, Maylla sempre encontrou acolhimento entre os seus familiares, que a tratavam com respeito e amor.
Ela gostava de cozinhar para a família, ouvir Marília Mendonça, cuidar das plantas e reunir todos em momentos simples. Foi assassinada aos 22 anos, em Lucas do Rio Verde, em janeiro de 2024. O autor foi condenado a 13 anos e seis meses de reclusão.
Karla Mariana Alves Correia

Para Ana Alves Correia, mãe de Karla, a filha era também sua melhor amiga. Compartilhavam o café da manhã, brincadeiras diárias e muitos sonhos, entre eles comprar uma casa, viajar e buscar melhores oportunidades de trabalho.
Karla tinha 28 anos quando foi assassinada em Rondonópolis, em setembro de 2024. Seu depoimento revela o vazio deixado por uma convivência marcada pelo carinho e pela amizade entre mãe e filha.
Juliana Valdivino da Silva

Aos 18 anos, Juliana sonhava em cursar Medicina Veterinária. A mãe, Rosicleia Magalhães da Silva, conta que a filha sempre demonstrava compaixão pelas pessoas e acreditava na mudança dos outros.
Após perceber comportamentos possessivos do namorado, a mãe tentou afastá-la do relacionamento. Juliana foi assassinada em Paranatinga, em setembro de 2024. O autor foi condenado a 29 anos e três meses de prisão.
Jhulia Glézia Souza Neres

A mãe, Valdecir Pereira de Souza, resume o sentimento da família dizendo que “morreu uma parte de mim”. Jhulia era descrita como uma jovem educada, carinhosa e cheia de planos para estudar, conquistar um bom emprego e ajudar a mãe.
Ela foi vítima de feminicídio aos 18 anos, em Guiratinga, em junho de 2024.
Gabrieli Daniel de Sousa

Gabrieli tinha 31 anos e conciliava maternidade, trabalho e estudos. Formada em Administração, iniciou uma segunda graduação em Enfermagem, motivada pelo sonho de atuar na área da saúde.
Segundo a mãe, Noemi Daniel, Gabrieli era dedicada aos filhos, organizada e determinada. Foi assassinada em Cuiabá, em maio de 2025, deixando duas crianças, hoje sob os cuidados da avó materna.
Yasmim Farias Cardoso

Filha única, Yasmim era estudante de Engenharia e estava prestes a concluir a graduação quando foi assassinada em março de 2025, em Rondonópolis.
Sua mãe, Alair Benedita Souza Farias, conta que a filha havia encerrado um relacionamento marcado pelo comportamento possessivo do ex-companheiro e possuía medidas protetivas. Trabalhadora e estudiosa, era considerada um orgulho para toda a família.
Jacyra Grampôla Gonçalves da Silva

Jacyra sonhava cursar Psicologia e, posteriormente, tornar-se delegada para atuar na proteção de mulheres vítimas de violência. A mãe, Jaciara Gonçalves da Silva, relembra a filha como uma jovem inteligente, generosa, apaixonada pelos estudos e dedicada à família.
Ela foi assassinada aos 24 anos, em agosto de 2025, no município de Sorriso.
Raquel Maziero Cattani

Nascida em Lucas do Rio Verde e criada no assentamento Pontal do Marape, em Nova Mutum, Raquel construiu uma trajetória ligada à produção rural. Especializou-se em queijos artesanais e conquistou reconhecimento internacional ao receber duas premiações no Mundial do Queijo de 2024.
Mãe de duas crianças, Raquel foi assassinada em julho de 2024. O ex-marido e o ex-cunhado foram condenados pelo crime.
Gisa Ribeiro Lima

Natural de São Paulo, Gisa Ribeiro Lima tinha 55 anos e era uma mulher trans. No depoimento da irmã, Gilmara Ribeiro de Campos, ela é lembrada como uma mulher forte, verdadeira e que enfrentou inúmeras dificuldades para viver sua identidade.
A homenagem destaca sua coragem e reafirma que sua história permanecerá viva na memória da família.
Regiane Alves da Silva Barbosa

Maria Conceição Alves Costa, a “mãe de coração” de Regiane, conta que acompanhou sua criação, ajudou no nascimento das filhas e tentou inúmeras vezes afastá-la do relacionamento abusivo que terminou em feminicídio.
Regiane tinha 29 anos, era trabalhadora, alegre e sonhava oferecer uma vida melhor às duas filhas, que hoje vivem sob os cuidados de Conceição. O autor do crime foi condenado a 39 anos de prisão.
Memória que resiste
Ao reunir histórias como essas, o memorial “Não Sou Apenas Um Número – Em Memória Delas” reafirma que nenhuma vítima pode ser reduzida às estatísticas da violência. Cada depoimento preserva identidades, fortalece a memória coletiva e transforma a dor em um compromisso permanente com a justiça e com o enfrentamento ao feminicídio.
Mais do que lembrar como morreram, o memorial faz questão de registrar como viveram mulheres que amavam, trabalhavam, estudavam, cuidavam de suas famílias e alimentavam sonhos interrompidos pela violência.
Por Redação RBT News




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