“Júri atravessa madrugada e condena trio a quase 69 anos pela execução de Roberto Zampieri”
Após três dias de julgamento, o Tribunal do Júri da Comarca de Cuiabá condenou três acusados de participação na execução do advogado Roberto Zampieri. As penas aplicadas somam 68 anos, 9 meses e 30 dias de reclusão, encerrando uma das etapas mais importantes do processo que apura o assassinato do jurista. A decisão foi anunciada às 00h49 da madrugada desta sexta-feira (2), depois de uma longa sessão marcada pela apresentação de provas, depoimentos, interrogatórios e intensos debates entre acusação e defesa.

A.G.S. foi condenado a 21 anos, 10 meses e 15 dias de prisão; H.F.M.B., a 25 anos de reclusão; e E.L.C.V., a 21 anos, 10 meses e 15 dias. Ao final da votação, o Conselho de Sentença acolheu integralmente a tese apresentada pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso e reconheceu todas as qualificadoras descritas na denúncia.
Os jurados entenderam que o homicídio foi cometido mediante paga ou promessa de recompensa, com emprego de recurso que dificultou a defesa da vítima e com utilização de arma de fogo de uso restrito. A decisão representa a responsabilização criminal dos três acusados apontados pela investigação como integrantes da estrutura responsável pela execução do advogado.
O julgamento mobilizou o Judiciário, o Ministério Público, a defesa dos réus e representantes da Ordem dos Advogados do Brasil. O processo, segundo as informações apresentadas durante a sessão, reúne mais de 55 mil páginas, resultado de uma extensa investigação sobre a dinâmica do crime, a participação dos acusados, a circulação de dinheiro e a possível atuação de pessoas que teriam financiado ou determinado a execução.
Na acusação atuaram os promotores de Justiça Samuel Frungilo e Vinícius Gahyva Martins, integrantes do Núcleo de Defesa da Vida do Ministério Público de Mato Grosso. Também participou dos trabalhos, como assistente de acusação, o vice-presidente da OAB-MT, Giovani Santin. Durante os três dias, a acusação buscou demonstrar aos jurados que o homicídio não teria sido resultado de uma ação improvisada, mas de uma execução previamente planejada.
O primeiro dia de julgamento foi destinado principalmente à oitiva das testemunhas. Foram ouvidas seis pessoas, entre elas os delegados da Polícia Judiciária Civil Nilson André Farias de Oliveira e Edilson Ricardo Pick, responsáveis por etapas da investigação, além do delegado da Polícia Federal Marco Bontempo. Também prestaram depoimento José Marcos Marini, Mariana Costa Pinto e Lucilene Gonçalves da Silva.
Os depoimentos abordaram pontos considerados centrais para a compreensão do crime, como a reconstrução dos acontecimentos, a movimentação dos investigados antes e depois do homicídio, os elementos recolhidos durante as diligências e o papel que teria sido desempenhado por cada acusado. A partir dessas informações, acusação e defesa construíram suas respectivas versões sobre os fatos diante dos sete jurados responsáveis pelo julgamento.
No segundo dia, foram realizados os interrogatórios de A.G.S., H.F.M.B. e E.L.C.V.. Os três responderam aos questionamentos relacionados à acusação e aos elementos reunidos no processo. Já no terceiro dia, os trabalhos se concentraram nos debates finais, quando Ministério Público e defesas apresentaram suas interpretações sobre as provas e tentaram convencer o Conselho de Sentença.
Um dos pontos destacados pelo Ministério Público durante a réplica foi o rastreamento financeiro relacionado ao crime. Segundo a acusação, a investigação identificou o pagamento de R$ 124.250 antes da execução e de outros R$ 60 mil depois do homicídio. Os promotores sustentaram que esses recursos estariam ligados aos valores pagos pelos apontados mandantes para viabilizar a morte do advogado.
A movimentação financeira foi apresentada aos jurados como um dos elementos destinados a reforçar a tese de que se tratava de um homicídio por encomenda. Para o Ministério Público, os valores identificados durante a investigação ajudariam a estabelecer uma conexão entre os responsáveis pela execução e aqueles que teriam interesse na morte da vítima.
Outro aspecto abordado durante os debates envolveu E.L.C.V.. Conforme sustentado pela acusação, teriam surgido elementos na investigação indicando que ele teria solicitado valores entre R$ 500 mil e R$ 750 mil para que ele e os demais envolvidos não revelassem às autoridades a identidade dos supostos mandantes do homicídio. A alegação foi apresentada pelo Ministério Público no contexto do conjunto de provas analisado pelo júri.
Durante sua sustentação, o promotor Samuel Frungilo chamou a atenção para o volume de elementos obtidos durante a investigação. Com 27 anos de atuação no Ministério Público, ele afirmou aos jurados que jamais havia se deparado com um homicídio mediante recompensa acompanhado de tamanha quantidade de provas.
“Eu tenho 27 anos de Ministério Público. Eu nunca vi um crime de recompensa e homicídio mercenário com tantas provas”, declarou Frungilo durante os debates.
O promotor Vinícius Gahyva Martins também enfatizou o nível de planejamento que, segundo a acusação, antecedeu a execução. Para ele, os envolvidos teriam acompanhado a rotina da vítima até identificar um momento considerado mais favorável para a prática do crime.
“Planejaram e esperaram o melhor momento de vulnerabilidade da vítima para poder retirar o seu bem mais precioso, o direito de viver. O maior roubo que alguém pode sofrer é a interrupção do curso da sua existência”, afirmou.
Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público, A.G.S. foi apontado como o homem que efetuou os disparos que mataram Roberto Zampieri. H.F.M.B., por sua vez, teria participado diretamente da execução do plano e, conforme a acusação, fornecido a arma utilizada no homicídio. Já E.L.C.V. foi apontado como integrante da estrutura criminosa envolvida na preparação e execução do crime.
Ao final dos debates, os jurados responderam aos quesitos apresentados pelo juiz e reconheceram a responsabilidade criminal dos três réus. Com isso, foram mantidas as três qualificadoras defendidas pelo Ministério Público, resultando nas penas individuais que, somadas, chegam a 68 anos, 9 meses e 30 dias de prisão.
A condenação encerra o julgamento desta etapa do caso, mas a investigação envolvendo os supostos mandantes e demais circunstâncias relacionadas ao homicídio permanece como um dos capítulos centrais do processo que apura a morte de Roberto Zampieri.
Por MT é Notícia




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