‘É 100% certo que não sou um gênio. Mas é 100% certo que não sou tonto’, diz Ancelotti
O técnico da seleção brasileira, Carlo Ancelotti, terminou o almoço no Hotel The Ridge, em Baskin Ridge (Nova Jersey), onde a seleção brasileira está concentrada, e reservou meia hora para uma entrevista exclusiva à coluna na quinta (2).

Na conversa, ele falou que, nesta fase da Copa do Mundo, todos os jogos do Brasil serão duros —inclusive o de domingo (5) contra a Noruega. Uma equipe que, segundo diz, é organizada na linha defensiva e tem um dos melhores jogadores do mundo, Erling Haaland.
Afirmou que não reza durante os jogos porque, apesar de católico, sabe que “Deus tem outros problemas em que pensar”. E disse que não corre no campo para comemorar gols, como ocorreu no jogo com o Japão, porque, aos 67 anos, quer evitar “romper o joelho”.
Além disso, no fim de uma partida sofrida, seu sentimento é “mais de alívio do que de felicidade”.
O técnico disse ainda que Neymar não está conformado no banco de reservas, mas se comporta “muito bem”. Treina, é respeitoso com os colegas e já está pronto para jogar os 90 minutos de uma partida.
Ancelotti garante que não se importa com críticas, mas ressalta que já treinou equipes para 1.400 jogos. “Eu não sei se entendo ou não de futebol. Mas também ninguém pode julgar se eu entendo ou não”, afirma.
Para ele, os jogadores brasileiros estão mais confiantes. “Podemos sofrer um gol, mas estamos preparados para reagir”, afirma. Ao mesmo tempo, diz que o treinador é a parte “débil” do futebol: quando o time ganha, o mérito é dos jogadores. Na derrota, é ele o único culpado.
Revelou quem imagina que estará com na seleção no Mundial de 2030 —e se despediu para ver o jogo da Espanha contra a Áustria, vencido pela La Roja por 3 a 0.
JOGO DURO CONTRA A NORUEGA
O Brasil não ganha um mata-mata contra seleção europeia há 24 anos. O senhor espera um jogo muito duro?
Neste ponto da Copa, todas as partidas são duras. Em um mata-mata entram em jogo muitos fatores, não só aspectos técnicos, de estratégia, mas também aspectos mentais.
A Noruega é uma boa equipe, com bons jogadores. O [centroavante Erling] Haaland é um dos melhores jogadores do mundo. Sempre é difícil. Mas estamos confiantes de que teremos um bom jogo.
O senhor, como técnico, já comandou equipes que ganharam e perderam de times em que ele jogava, não é?
Sim. Quando eu estava [como treinador] no Napoli, jogamos contra o [clube austríaco Red Bull] Salzburg. E depois houve um enfrentamento contra o Manchester City quando eu estava no Real Madrid.
É um jogador muito forte, muito conhecido.
O Gabriel Magalhães vai marcá-lo, não é? Que orientação o senhor deu a ele?
No aspecto tático, não jogamos com marcação individual. Temos uma defesa coletiva.
Obviamente Gabriel está mais posicionado perto dele. Mas a defesa tem de ser coletiva, e não apenas individual. Estamos trabalhando nisso há um ano, o Gabriel pode contar com a ajuda dos outros.
Gabriel já teve confronto com ele em outros jogos, não?
Sim, eles se enfrentaram na Premier League, com Gabriel jogando pelo Arsenal e Haaland pelo Manchester City.
Mas nossa preparação para o jogo contra a Noruega não está focada apenas no Haaland. A seleção norueguesa tem boa estratégia, um treinador experiente.
Que outros desafios esse jogo apresenta para a nossa seleção?
É uma equipe muito bem organizada na linha defensiva, o treinador está trabalhando muito bem nesse aspecto. É muito forte na bola parada, por exemplo. São jogadores com bom preparo físico. Todas são características positivas —para eles.
O Brasil teve muitos jogadores lesionados nesse processo, as mais recentes são as lesões de Paquetá e Raphinha. Isso atrapalhou muito seus planos?
Escolhemos 26 jogadores para substituir os que sofrem lesões. Tivemos lesões antes da convocação, tivemos agora.
Por sorte Raphinha está se recuperando. Paquetá precisará de um pouco mais de tempo. Mas isso é parte do futebol porque a intensidade do jogo agora é muito alta. É bem mais fácil um jogador sofrer uma lesão.
Quem vai substituir o Paquetá no próximo jogo?
Isso eu não vou dizer para você.
Por favor [risos].
Vou pensar.
NEYMAR NO BANCO
O senhor afirmou depois do jogo do Japão que preservou o Neymar para uma eventual prorrogação. Fará a mesma coisa contra a Noruega?
O importante é que ele pode jogar. Quanto tempo jogará, ninguém sabe. Ele tem experiência para manejar os minutos do jogo, o ritmo.
Quando eu entender que a equipe precisa dele, vou colocá-lo [em campo].
Ele já pode jogar 90 minutos?
Sim. Ele pode jogar 90 minutos.
Neymar está conformado em ficar no banco de reservas? Como ele está convivendo com essa situação?
Ele não está conformado, mas está se comportando muito bem. Está treinando muito bem.
Neymar é muito respeitoso, amável e querido pelos companheiros. É um caráter importante na equipe porque tem qualidade e é uma pessoa muito humilde.
Estou muito contente com ele. E obviamente ele quer jogar, como sempre jogou.
Ele pede para o senhor?
Não pede “quero jogar”, mas isso é bastante claro. E positivo. Um jogador não pode ficar contente de estar no banco.
A torcida precisa de um craque. Mas aqui, na seleção, não precisamos de um craque. Precisamos de jogadores de alto nível que possam ajudar a equipe
VINI JR.
Neymar seria o craque desse Mundial se estivesse em campo. E quem acabou virando o craque da seleção foi Vini Jr., o senhor concorda?
Vini Jr. é um jogador muito importante.
Com a saída do Neymar, ele virou o craque da seleção?
A torcida precisa de um craque. Mas aqui, na seleção, nós não precisamos de um craque. Precisamos de jogadores de alto nível que possam ajudar a equipe.
O senhor já disse, quando Vini Jr. enfrentou problemas fora do campo, que não era o pai nem o irmão dele. Mas, vendo a forma carinhosa como o senhor o trata, e a outros jogadores, pergunto: é possível para o técnico evitar esse sentimento paternal, especialmente em relação aos mais jovens?
Existe a relação entre o técnico e o jogador e a relação entre as pessoas. São coisas diferentes, que podem caminhar ao mesmo tempo.
Eu posso ter uma relação pessoal com ele [Vini Jr.] —e eu tenho. Gosto dele, de seu caráter.
A chave do êxito de Vinicius é ser humilde com um talento excepcional, extraordinário.
Os torcedores brasileiros quase morreram com o segundo gol da seleção contra o Japão, e viram o senhor lá, tranquilo. Por dentro, como é que o senhor fica de verdade?
Eu não posso correr porque rompo o joelho. Eu tenho 67 anos.
E para mim o jogo nunca acaba. Quando Martinelli marcou o gol, faltavam alguns minutos para o fim. Então eu não posso comemorar. Porque já me passou muitas vezes isso, de um jogo que eu pensava que já tinha acabado terminar mal.
Eu poderia ter celebrado quando a partida acabou de verdade. Mas quando termina um jogo, como o do Japão, [o sentimento] é mais de alívio do que de felicidade.
REZA NO JOGO
Quando o sufoco é muito grande, o senhor reza?
Eu sou católico, mas eu acho que Deus tem outros problemas em que pensar [risos].
O senhor fica com raiva de jogador que perde o gol, como o torcedor fica?
Não. Eu fui jogador de futebol e entendo que se pode falhar.
Eu tenho raiva quando o jogador não luta. Mas quando ele luta, e falha, não importa. O erro é um componente do jogo.
Quantos chicletes o senhor masca durante um jogo?
Não sei. Contra o Japão não foram muitos, porque eu os esqueci no vestiário. Não masquei chicletes no jogo.
O Endrick distribuiu seus chicletes para os jogadores, como mostra um vídeo que viralizou?
Não eram meus [risos]. Não eram meus.
Quando o jogo está no sufoco, o técnico muda jogadores, mas, além disso, tem que mudar a cabeça da equipe em campo. O que o senhor falou para eles no vestiário, durante o intervalo da partida contra o Japão?
Falei para serem confiantes e não terem pressa de marcar os gols, porque o gol seria marcado.
Disse para serem também resilientes e estarem preparados para tudo o que pode passar.
Um trabalho forte feito pela equipe nesse período foi mudar a cabeça. Agora parece uma equipe mais confiante, com menos ansiedade durante o jogo.
Tem sido um bom trabalho. Estamos preparados para todas as coisas que podem passar. Podemos sofrer um gol, mas estamos preparados para reagir.
TORCIDA
Que impacto tem sobre os jogadores a extrema pressão exercida pelos torcedores brasileiros? O Casemiro, por exemplo, estava sendo muito criticado nas redes durante o jogo contra o Japão, e depois de fazer um gol virou Deus.
O Brasil é um país especial nesse sentido. A pressão que um jogador com a camisa do Brasil pode sofrer é diferente da que sofre em outra seleção. Mas um jogador como o Casemiro, que já participou de mil partidas, tem o caráter para suportar todo esse tipo de pressão.
Não me preocupa que o Casemiro cometa um erro. Ele sabe perfeitamente o que fazer para sair [da situação].
Depois da vitória contra o Japão, surgiram muitas brincadeiras de torcedores dizendo coisas como “tenho que me conformar que Ancelotti entende mais de futebol do que eu”. O torcedor brasileiro é muito prepotente e fanático, acha que sabe mais do que o técnico? Comparando com os de outros países, somos mais chatos [risos]?
Na Itália se diz que todos os homens querem ser treinadores e que todas as mulheres querem ser arquitetas.
Eu não sei se entendo ou não de futebol. Mas também ninguém pode julgar se eu entendo ou não.
A única coisa certa é que eu já preparei [equipes para] mais de 1.400 jogos. Pode não ser suficiente para entender de futebol, mas é uma boa experiência.
E ninguém, ninguém… Somente uma pessoa preparou mais jogos do que eu: Alex Ferguson [ex-técnico do Manchester United], que preparou mais de 2.000 jogos.
Então eu obviamente aceito conselhos de todo mundo, mas o único que poderia ser mais indicado para me dar conselhos seria Alex Ferguson.
O senhor consegue andar na rua no Brasil?
O povo brasileiro é muito respeitoso. Eu vou a restaurantes, à praia. Pedem fotos, mas com muito respeito.
O senhor era auxiliar técnico da seleção da Itália em 1994, quando ela perdeu a Copa para o Brasil. Comparando com o que encontrou agora: o futebol brasileiro ficou para trás? Temos ainda a capacidade de ser uma potência no futebol?
O Brasil é um país que forma muitos jogadores. Está formando Endrick, Estêvão, jogadores muito jovens com um talento extraordinário.
O talento se forma pela genética, pela estrutura, pela cultura e pela tradição de um país.
O talento, há 30 anos, era suficiente para ganhar. Hoje ele, sozinho, não é suficiente. É preciso apoiar, ajudar o talento com o profissionalismo, o conhecimento, o aspecto físico, a seriedade, o caráter, para que o talento possa fazer a diferença.
O senhor não pode falar sobre a escalação para o próximo jogo, mas pode citar nomes que estarão no próximo Mundial, para o qual já está contratado. Ryan, Endrick, Estêvão?
[Tem] Endrick, Vinicius, Estêvão, Militão, Rodrygo, são todos jogadores muito jovens que estarão também no próximo Mundial.
Além do talento, tem outra grande diferença no futebol. Antigamente, um grande craque ganhava R$150 mil, R$ 200 mil por mês. Hoje, grandes jogadores como Messi e Cristiano Ronaldo, que o senhor treinou, estão entre os maiores milionários do mundo. Isso muda a relação do técnico com os jogadores?
A relação técnico-jogador não muda. O técnico não vê o jogador a partir de seu salário. O jogador tem que dar informação, o treinador tem que dar informação ao jogador.
O que muda é a relação pessoal. Eu tenho que me adaptar a essa nova geração, às suas exigências. É a mesma coisa com meus filhos. São de outra geração. É bastante normal. É uma das qualidades mais importantes em um treinador: adaptar-se.
CRÍTICAS
O senhor já disse que o técnico é uma figura frágil do futebol, mas necessária. Por que frágil?
É frágil porque o êxito é dos jogadores, e a culpa é do treinador. Por isso é o lado mais débil.
O que diriam se não ganhássemos do Japão? O que poderia passar com a não substituição do Casemiro e a entrada do Martinelli? De quem seria a culpa, para você? Minha, não?
Eu entendo isso perfeitamente, e por isso quero manter muito equilíbrio.
É 100% certo que não sou um gênio. Mas é 100% certo que não sou tonto.
Qual é o peso de comandar uma seleção que é pentacampeã, mas não ganha um título há 24 anos?
É tudo verdade. Há uma pressão, são 24 anos. Mas, afinal, para mim é uma honra estar aqui e treinar a seleção brasileira. E, por ser uma honra, aceito todas as críticas.
Para mim não faz diferença porque estou honrado de estar aqui.
EM CASA
O que mais chama a atenção do senhor nos brasileiros?
Fui pela primeira vez ao Carnaval, e ele explica muito bem quem é o povo brasileiro: alegre, muito alegre, unido, muito bem organizado, e humilde, muito humilde.
Eu até agora nunca encontrei um brasileiro arrogante. E isso é bem raro.
Estou trabalhando com muitos brasileiros na comissão técnica [da CBF], médicos, fisioterapeutas. Ninguém é arrogante aqui.
Nem os grandes craques?
Nem os grandes craques. Não encontrei. Bem, eu posso escolher os grandes craques [rindo]. Se for arrogante, não vou escolher.
Por Folha de São Paulo




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