Dois últimos indígenas de um povo que vai desaparecer em MT
Nem todos têm o que comemorar no Dia dos Povos Indígenas, celebrado neste domingo (19). No noroeste de Mato Grosso, a história dos Piripkura expõe um dos cenários mais extremos de ameaça à sobrevivência de um povo no Brasil.
Restam apenas dois integrantes da etnia: Baita e Tamandua. Eles vivem isolados na floresta, entre os municípios de Colniza e Rondolândia, evitando qualquer contato com não indígenas e mantendo, como podem, o modo de vida tradicional.
A trajetória do povo é marcada por violência, expulsões e perdas. A partir das décadas de 1970 e 1980, invasões ligadas à exploração madeireira e à expansão agropecuária avançaram sobre o território, resultando em ataques, mortes e na dispersão dos sobreviventes.
Com o passar dos anos, o grupo foi drasticamente reduzido. Hoje, a existência dos Piripkura depende exclusivamente dos dois homens que permanecem na mata.

Para o antropólogo e coordenador de projetos da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso, Igor Costa Oliveira, o isolamento desses povos não é uma escolha simples, mas consequência direta de um histórico de violência.
“Mais do que falar em redução, estamos diante de populações sobreviventes de massacres, fugas forçadas, epidemias e da perda de seus territórios. O isolamento aparece como consequência extrema desse extermínio”, explica.
Além do risco de desaparecimento biológico, já que ambos são homens, a Terra Indígena Piripkura segue sob pressão constante. Desmatamento, grilagem de terras e garimpo ilegal avançam sobre a região, segundo monitoramentos de órgãos como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e levantamentos do Instituto Socioambiental.
Segundo o especialista, essas pressões atingem diretamente a possibilidade de sobrevivência dos grupos isolados.
“Os territórios foram cortados por estradas, cercados por fazendas e serrarias, obrigando esses povos a viver em fuga constante. Quando a floresta é destruída, não é só o ambiente que desaparece, mas a própria possibilidade de continuidade desses povos”, afirma.
Em março de 2023, uma portaria da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) restringiu o acesso de terceiros e a exploração de recursos naturais na área. A medida busca garantir a proteção dos indígenas isolados e segue válida enquanto a demarcação definitiva, em curso há mais de 40 anos, não é concluída.
Para Igor, a demora na regularização é um dos pontos centrais do problema. “A existência de povos à beira da extinção revela menos uma falha desses grupos e mais a morosidade do Estado. No caso Piripkura, o território nunca foi definitivamente demarcado, ficando vulnerável a pressões econômicas e políticas”, pontua.

Para pesquisadores e indigenistas, preservar o território vai além da sobrevivência física dos seus últimos integrantes. Povos como os Piripkura carregam conhecimentos tradicionais acumulados ao longo de gerações, considerados fundamentais para a conservação da biodiversidade e o equilíbrio da floresta.
O antropólogo também chama atenção para a forma como essas histórias são contadas. “Existe uma tendência histórica de tratar os povos indígenas como se estivessem destinados ao desaparecimento. Mas, na prática, o que vemos é resistência. Mesmo diante de tantas perdas, esses povos continuam existindo”, afirma.
Mesmo diante das ameaças, Baita e Tamandua seguem na mata, em silêncio, como os últimos representantes de um povo que corre risco real de desaparecer.
Os Piripkura
A história do povo Piripkura é marcada por sucessivas expulsões de seu território tradicional. Entre as décadas de 1970 e 1980, a região foi invadida por atividades madeireiras e pela expansão agropecuária.
Os ataques ao grupo causaram mortes e a dispersão dos sobreviventes pela floresta. Anos depois, equipes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas localizaram integrantes e confirmaram os impactos desses episódios.
Segundo Igor Costa Oliveira, os Piripkura fazem parte de um contexto mais amplo. “Não se trata apenas de um grupo isolado, mas de redes de parentesco e relações que foram fragmentadas ao longo do tempo”, explica.
Os poucos remanescentes passaram a viver em fuga constante, adotando o isolamento como estratégia de proteção. O antropólogo destaca que o termo “isolados” não traduz toda a complexidade desses povos. “Os Piripkura fazem parte de um conjunto maior de povos indígenas, com conexões históricas. O que vemos hoje é resultado de um processo que fragmentou essas redes”, afirma.
Com o tempo, o grupo foi reduzido até chegar à situação atual.
Memória viva do povo
Rita Piripkura, irmã de Baita, deixou o isolamento após os episódios de violência e hoje vive na Terra Indígena Karipuna, em Rondônia.

Ela se tornou uma das principais vozes na luta pela preservação do povo e pela proteção dos parentes que seguem isolados. Seu papel é considerado fundamental para manter viva a memória e a história dos Piripkura.
Por Primeira Página




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