Da farda para a batina: padre de MT conta como deixou a Polícia Militar para seguir vida religiosa

Uma rotina marcada pelo uso de farda, coturno, colete à prova de balas, armas e munições foi trocada pela batina. Essa mudança radical aconteceu na vida do padre Elber Bravin, de 40 anos, morador de Nobres (MT), que há 14 anos decidiu deixar a Polícia Militar para seguir a vida sacerdotal.

Em agosto comemora-se o mês das vocações e o sacerdote contou ao Primeira Página quais foram os motivos que o levaram a abandonar a profissão concursada para seguir um antigo chamado que sentia desde a infância e passou a falar mais alto com o passar dos anos.

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Padre conta como deixou a Polícia Militar para seguir chamado de infância. – Foto: Reprodução

Natural de Cacoal (RO) e de família de camponeses, Elber conta que desde a infância trabalhava junto dos pais no sítio, onde plantavam arroz, milho, feijão, e outros alimentos para consumo próprio.

Na adolescência estudou em colégio agrícola e tinha o sonho de deixar a roça para cursar ensino superior, passar na faculdade de Direito e ter um emprego estável. Apesar de sentir na infância um chamado a seguir a vida religiosa, sentia que relutava contra.

📿 “O chamado sacerdotal sempre esteve lá, mas eu não o seguia. Eu cantava na igreja, ajudava nas pastorais, sempre fui envolvido na comunidade. Deus me chamava, mas eu não queria. Queria seguir a carreira judicial, ser promotor ou juiz, mas eu não queria ser padre.”

— Padre Elber Bravin

Da vontade de se qualificar, deu sequência a uma série de concursos, conseguindo passar no da Polícia Militar, em 2005, onde iniciou a formação. Fez parte do 2º Batalhão da Polícia Militar de Rondônia, atuou na 1ª Companhia de Polícia e depois na 2ª Companhia da PM-RO.

Ao longo de 6 anos passou pelo grupo de operações especiais, atuou com operações ambientais, como guarda de trânsito, guarda de presídio, de quartel, atuou na rádio patrulha, na administração da PM, no policiamento ostensivo, polícia comunitária e a escola de recrutas. Até que um dia, tudo mudou.

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Dia de solenidade no quartel, quando Elber era policial militar. – Foto: Arquivo pessoal

Chamado ignorado falou mais alto

Era quarta-feira de cinzas, no ano de 2011, quando aquele chamado abafado falou mais alto. Sem nunca ter comentado com ninguém sobre sua vontade de seguir a vida religiosa, Elber conta que a angústia o levou a conversar com um padre sobre aquele sentimento. Da conversa, veio um entendimento:

📿 “A vida religiosa não é necessariamente um desejo, é algo que fala na nossa consciência, no nosso coração. Eu sabia que eu tinha que ser padre com a mesma intensidade que eu sabia meu nome, mas eu não queria isso.”

— Padre Elber Bravin

Ao voltar para casa, leu o livro A Imitação de Cristo e refletiu sobre aquelas palavras e o peso da escolha, mas também das renúncias que teria de fazer para abraçar o chamado.

“Eu pensei no tamanho do sacrifício que teria que fazer. Não seria algo temporário, era pra sempre. Fiquei relutando no coração, mas nesse momento eu percebi que estava colocando em primeiro lugar na minha vida as coisas temporárias e não as coisas eternas. Então eu falei para Jesus que estava disposto”, decidiu.

Daquele dia em diante, aproveitou para tirar férias e licenças atrasadas da Polícia Militar, e em 2012, saiu oficialmente seu pedido de exoneração da corporação em Diário Oficial.

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Elber na última vez em que vestiu a farda e se preparava para ir ao aeroporto pegar voo para Rondônia para dar baixa na Polícia Militar, em 2012, após conhecer o seminário Cristo Rei em MT. Ao lado, registro de sua primeira homilia como diácono em 2019. – Fotos: Arquivo pessoal

Recomeçar a vida

Ao contar da decisão para amigos e policiais, a surpresa foi geral. Deixar uma carreira sólida e com progressão na vida militar, para iniciar do zero a formação em teologia, filosofia e os procedimentos de ordenação sacerdotal, que costumam levar mais de 6 anos, praticamente o período em que esteve na PM.

📿 “Foi difícil abandonar a profissão, foi o maior sacrifício que eu já fiz. A polícia foi uma mãe pra mim, me amadureceu muito. Pensei que faria carreira na vida militar até aposentar. Renunciar aos meus projetos para fazer o sonho de Deus foi muito difícil, dizer ‘eis-me aqui, Senhor’ e ir para onde Ele me mandar. Mas a gente faz isso porque crê no chamado e se entrega.”

— Padre Elber Bravin

Mesmo assim, seguiu a decisão. No dia em que foi até a casa dos pais contar a novidade, resolveu fazer uma brincadeira de adivinhação. Antes mesmo de falar qualquer coisa a mãe disse: “você vai ser padre”.

Na visão dele, a afirmação da mãe só reforçou aquilo que todos já viam e ele lutava para esconder.

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Elber durante ordenação diaconal em maio de 2019, etapa anterior para virar padre. – Foto: Arquivo pessoal

Caminhada na vida religiosa

Em 2012 ingressou no Seminário Cristo Rei em Várzea Grande. Em 2019 foi ordenado diácono. Já em 2020 veio a ordenação sacerdotal, em plena pandemia, algo que se recorda com tristeza, mas também esperança.

O momento de isolamento social em que muitos amigos e conhecidos perderam familiares para a Covid-19 foi doloroso. A cerimônia de ordenação foi reservada e poucos participantes.

Naquele momento, ele viu a sua nova vida como uma forma de consolar os aflitos e ajudar quem mais precisava. Aliás, de continuar ajudando e entregando a vida pela comunidade.

Dos tempos de policial, o que mais gostou e ainda hoje recorda com carinho era a escola de recrutas. No tempo em que ficou na corporação ajudou diretamente na formação de 100 policiais militares, 90 homens e 10 mulheres.

“O que mais me marcou como policial foi ajudar as pessoas, de estender a mão e ajudar pensando na comunidade humana, fazer o bem, era o que mais me envolvia, eu me esforçava muito para resgatar valores e a identidade do policial militar”, conta.

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Padre Elber no momento da ordenação sacerdotal. – Foto: Arquivo pessoal

Hoje, vigário da Paróquia São Sebastião em Nobres (MT) desde 11 de fevereiro de 2020, há 6 anos, cita que apesar das enormes diferenças, a vida de policial e de padre tem algumas semelhanças, por incrível que pareça.

📿 “Tem que ter muita disciplina, exige rigor. Ser policial é lidar com vidas humanas. O padre lida com a salvação das almas. Ambas as situações exigem muita organização, tradição, mas a vida na PM ajudou no sacerdócio: resolver conflitos, apaziguar situações, ser diplomático.”

— Padre Elber Bravin

Das ocorrências dos tempos de polícia que mais lhe marcaram durante a carreira cita o caso de um sorveteiro que foi feito refém por uma quadrilha de criminosos que assaltou uma sorveteria. Ao chegar no local junto da equipe, render o grupo e desamarrar a vítima recorda da alegria do homem ao vê-los: “eu sabia que vocês viriam”.

“Eu atendi muita ocorrência, resolvi muitos problemas. Toda vez que eu prendia alguém, eu sempre conversava muito com a pessoa, pra entender porque que a pessoa fez aquilo, entender a mente dela, porque aderiu ao crime, ao erro. O que a levou a roubar, causar danos ao patrimônio alheio, matar… Então eu percebi que o coração do ser humano é um coração muito frágil e que padece de muitas informações, de conhecimento”, explica.

Hoje, padre há 6 anos, relata que desde que foi ordenado nunca ficou um dia sequer sem rezar uma missa e em alguns dias, conta que já celebrou até 5 missas. Para além dos ritos, também conta que busca ser um instrumento de encontro com Deus na vida dos fiéis e ajudar quem precisa.

“Eu quero ser um padre que leva as pessoas a ter uma experiencia com Deus, que ajude a encontrar o sentido da vida. Quando cheguei em Nobres eu fiquei escandalizado com o número de mortes por ano. Falta compreensão de vida, de que não é eliminando a vida alheia que se resolve as coisas. Os tempos da PM marcaram meu modo de pensar e de fazer um apostolado de que a vida cristã não seja só participar de missas, mas viver a fé, e dar testemunho para tocar coração e alcançar a graça de Deus”,conclui.

Por Primeira Página

Olá meu é Roberto Santos. Sou formado em Comunicação Social Jornalismo pela Universidade Federal de MT. Com mais de 10 anos de experiência. Trabalho com jornalismo comunitário e político. Ja trabalhei em canais como a Rede TV, Record e Band na cidade de Barra do Garças. Também para os sites Chocolate News e Semana7, bem como, nas Rádio Continental FM em Pontal do Araguaia e na Rádio Universitária FM em Aragarças GO. Em Sorriso trabalhei na antiga rádio Sorriso AM 700 ( Atual Sorriso FM) e no SBT Sorriso, minha última atuação na imprensa tradicional. Sempre trabalhei e vou continuar com foco em atender a população em geral e contribuir para o crescimento da cidade e do país. Atualmente sou proprietário do site Portal RBT News. Nasci em Fátima do Sul MS em 15 de setembro de 1981. è filhos de dona Tresinha Rosas da Silva e do seu Francisco Viana da Silva. Sou casado com Priscila Rapachi a quase 20 anos. juntos tivemos 04 filhos. Isaque, Larissa, Israelle e Israel. Dois de nossos filhos moram com o Senhor, Isaque e Israelle , estão nos braços do Pai.

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