Leniel afirma que procurou autoridades para relatar as supostas pressões. “Estou falando de pessoas com poder de influência política e econômica. A gente se pergunta qual é o limite dessa influência para tentar manipular ou coagir.”
A Polícia Civil do Rio confirmou que há apurações em curso sobre denúncias de coação envolvendo o vereador, em registros nas delegacias da 14ª DP (Leblon) e da 42ª DP (Recreio dos Bandeirantes). O Ministério Público também confirmou a existência de procedimento relacionado ao tema, sem detalhar o andamento.
Segundo Leniel, as tentativas de intimidação se agravaram no último ano, quando o julgamento foi marcado. “Esse poder de influência nos preocupa. Até onde vai esse limite? Será que não tentam chegar a jurados?”, questionou.
Além das denúncias de coação, o vereador critica a demora para que o caso fosse levado a julgamento. “São cinco anos tentando clamar por justiça, para o outro lado, há advogados muito influentes, que usam todos os instrumentos jurídicos possíveis para tentar adiar o julgamento.”
O advogado Rodrigo Faucz, que representa Jairinho, afirmou que a alegação de coação é uma “inverdade”. “Tudo o que ele [Leniel] fala relacionado a isso de coação não tem nenhum embasamento. Obviamente que não tem, senão haveria acusações, invetsigações e condenações relacionados a tais fatos”, diz.
Faucz também rebateu a afirmação de que a defesa teria atuado para adiar o julgamento. Segundo ele, os pedidos feitos ao longo do peocesso tiveram como objetivo garantir acesso a provas. De acordo com o advogado, parte do conteúdo teria sido disponibilizado às vésperas do júri.
A advogada Florence Rosa, que representa Monique, também negou qualquer tentativa de adiamento ou manobra para postergar o júri. Segundo ela, a defesa já manifestou formalmente que não pretende pedir adiamento.
“Se o senhor Leniel vem sofrendo algum tipo de coação, certamente não é da nossa parte. A família de Monique não detém poder financeiro ou de influência para iso”, afirma.
O advogado Hugo Novais afirmou que Monique é inocente e não participou das agressões contra o filho, acrescentando que eventuais denúncias de coação devem ser investigadas.
Jairinho e Monique respondem por homicídio triplamente qualificado, tortura e fraude processual. Ao longo do processo, ela nego qualquer envolvimento com a morte do filho. Ele, por sua vez, afirma que não teve culpa pela morte do então enteado.
O caso será julgado mais de cinco anos após a morte da criança, intervalo que, segundo Leniel, prolonga o sofrimento da família. “É muito difícil. Eu tenho mais tempo lutando por justiça pelo meu filho do que tive com ele em vida”, disse.
Henry morreu aos 4 anos após dar entrada em um hospital na zona oeste do Rio com múltiplas lesões pelo corpo. O caso teve grande repercussão nacional e levou à criação da Lei Henry Borel, que ampliou mecanismos de proteção a crianças vítimas de violência. Um dos pontos centrais é o aumento de pena para homicídios cometidos no ambiente doméstico contra menores de idade.
A lei tornou o homicídio contra menores de 14 anos um crime hediondo, qualificado, com penas de 12 a 30 anos, além de implementar medidas protetivas de urgência semelhantes às da Lei Maria da Penha.
Na entrevista, Leniel também relembra os últimos meses de convivência do filho com a mãe e o padrasto. Segundo ele, houve sinais de que algo não estava bem.
O pai afirma que o menino relatou episódios de agressão e demonstrava resistência em voltar para a casa onde vivia. “Ele falava que o tio machucou e chegou a dizer que não queria ir mais para a casa.”
Leniel diz que buscou ajuda junto a pessoas próximas ao convívio da criança, mas não conseguiu impedir o desfecho. Ele afirma que, à época, não havia instrumentos legais que permitissem uma intervenção mais rápida. “Se existisse um mecanismo de proteção como o de hoje, eu teria salvado ele”, disse, em referência à legislação criada após o caso.
Hoje vereador no Rio, ele afirma que transformou o luto em atuação pública e acompanha o processo como assistente de acusação. “Eu vivo o luto em luta. O que me faz levantar da cama é tentar proteger outras crianças.”
Às vésperas do julgamento, Leniel diz esperar uma condenação exemplar. “Precisa ser uma resposta para o país, para que outros agressores pensem antes de cometer violência contra uma criança.”
Apesar da expectativa, afirma que nenhuma decisão será suficiente para reparar a perda. “Não vai haver justiça nunca, porque nada traz o meu filho de volta.”
Por Folha de São Paulo
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