Nada disso foi analisado pelos funcionários no consulado. Depois de pedir o passaporte dentro da unidade diplomática no México, Apolo voltou para sua cidade a cerca de 200 km dali. Retornou ao consulado dias depois, uma área sob jurisdição do Brasil, na qual ele poderia ser preso a qualquer momento. Mas o passaporte foi emitido em 29 de setembro. Ele e é assinado pelo vice-cônsul do Brasil no México, Gustavo Alexandre Magalhães. O documento informa que ele foi “concedido em substituição a passaporte extraviado”.
O consulado fica na Cidade do México, onde funciona também a Embaixada do Brasil no país, local em que trabalham dois representantes da Polícia Federal, um delegado e um agente. Por alguma razão, os funcionários do consulado, da embaixada, incluindo os policiais federais, não verificaram que ele tinha mandado de prisão e ordens judiciais para ter passaportes cancelados, apreendidos e não mais emitidos.
O Itamaraty informou ao UOL que o arte-finalista “pediu urgência, alegou ser um turista que teria tido seus documentos furtados [sic] no centro da cidade, e apresentou boletim de ocorrência policial para embasar as alegações”.
“O consulado emitiu, então, o novo documento, sem que se tenha detectado a condição de foragido do requerente”, disse o Itamaraty em resposta ao UOL.
Pegou um voo para a Espanha em dezembro, e foi recebido pelo jornalista Oswaldo Eustáquio, apoiador do movimento bolsonarista. O “drible” no Itamaraty só foi observado no Ministério das Relações Exteriores em janeiro. O novo passaporte de Apolo foi cancelado só em 29 de janeiro, horas depois de o UOL pedir esclarecimentos à PF e aos diplomatas.
“O incidente motivou o Ministério das Relações Exteriores a apurar as causas do incidente e a realizar a revisão das práticas de emissão de documentos de viagem para evitar equívocos como o que lamentavelmente ocorreu no México”, respondeu o Itamaraty. Estaria em negociação um acordo com a PF para “aprofundar a integração entre os sistemas dos dois órgãos e viabilizar acesso direto às bases de dados dos dois lados, sem a necessidade de módulos de acesso, o que aumentará a integração e a segurança dos sistemas”.
Depois da publicação desta reportagem, na manhã desta segunda-feira (2), a assessoria da Polícia Federal afirmou que não participa da emissão de passaportes no exterior mesmo quando atua dentro de embaixadas. Tudo fica por conta do Itamaraty, afirmou a corporação. “Ainda quando presente em embaixadas e consulados por meio de suas adidâncias, a Polícia Federal não participa do processo de análise, concessão ou emissão de passaportes, atividades de natureza estritamente consular.” A PF só emite passaportes dentro do Brasil.
Pedido de proteção
Alheio a tudo isso, ainda em dezembro e a milhares de quilômetros dali, na Espanha, o arte-finalista procurou a polícia em Almería, a 540 km ao sul da capital espanhola. Lá, fez o pedido de “proteção internacional”. Hoje, ele vive em Madri. Ele deve se apresentar na brigada da Direção-Geral de Polícia em Almeria dia 16 de abril para a primeira audiência de seu pedido de proteção internacional. A expectativa da defesa dele é ter o mesmo sucesso que Eustáquio teve ao fugir do país.
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