Indígenas deixam sede da Cargill em Santarém (PA) após revogação de decreto de hidrovias; empresa afirma que houve vandalismo

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A líder indígena Alessandra Korap Munduruku celebra, em Santarém (PA), a revogação do decreto 12.600/2025, sobre hidrovias na amazônia – Adriano Machado – 23.fev.26/Reuters

Indígenas desarmaram suas barracas, fizeram as malas e deixaram a sede da Cargill, em Santarém (PA), nesta quarta-feira (25). Eles protestaram bloqueando a entrada da empresa do agronegócio por mais de um mês contra o plano de hidrovias, do governo Lula (PT), em rios da amazônia. No último sábado (21), invadiram a área interna da companhia e colocaram cartazes.

Na segunda (23), o governo cedeu à pressão dos atos, que cresceram desde janeiro, e anunciou a revogação do decreto 12.600/2025, alvo das críticas dos manifestantes. A medida foi publicada na terça (24) no Diário Oficial da União, o que levou à desmontagem do acampamento, realizado na área externa da empresa.

Povos indígenas da região do Tapajós, oeste do Pará, iniciaram a ocupação do terminal portuário da empresa em 22 de janeiro. O grupo exigia o fim do projeto, assinado pelo presidente, que incluía hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND). Ao longo deste período, o número de pessoas no ato chegou a 1.200, segundo a organização.

O governo, antes da revogação, defendeu que o decreto tratava apenas da realização de estudos e que o transporte hidroviário é o tipo mais sustentável, com menor emissões de carbono. A gestão Lula também afirmou que o impacto ambiental seria considerado nas obras de dragagem. Os indígenas, por sua vez, criticaram que não houve consulta prévia, como determina a lei.

A Cargill, em nota, classificou o ato ocorrido em frente ao escritório da empresa em São Paulo, na última sexta (20), e a entrada na sede em Santarém como “duas ações violentas”. Os protestos, segundo o comunicado, resultaram em vandalismo em ambos ativos da empresa e no interrompimento total das operações no terminal portuário.

A companhia afirma que houve danos à fachada do escritório na capital paulista. Manifestantes usaram tinta em portas e vidraças do prédio. A Cargill, no comunicado, não detalhou que estragos identificou em Santarém.

Alessandra Korap Munduruku, líder indígena, destaca que as manifestações contra o decreto se iniciaram logo após sua publicação, em agosto de 2025. O plano de hidrovias se somou à reivindicação dos povos contra o projeto da ferrovia Ferrogrão —ambos encampados pelo governo Lula—, que também busca dar vazão ao escoamento de produtos do agronegócio.

“Quando saiu o decreto 12.600, a gente sabia que tinha que fazer algo antes que saísse o leilão das hidrovias”, disse à Folha. “Depois disso, ocorreram os leilões das ferrovias, inclusive uma delas era a Ferrogrão. Aí vieram os editais das dragagens, e entendemos, naquele momento, que eles queriam perfurar os rios.”

Esse conjunto de medidas do governo, sem consulta aos indígenas afetados, levou a protesto na COP30, a conferência do clima das Nações Unidas que ocorreu em novembro em Belém, lembra Alessandra. Na ocasião, mundurukus bloquearam o acesso à zona azul, o espaço diplomático do evento, ainda no quarto dia de programação.

“Mesmo com a demarcação do nosso território, ainda corremos riscos”, avalia.

Na visão de Alessandra, o governo demorou a dar uma resposta. Para serem ouvidos, diz, os atos tiveram que elevar a tensão, como na interceptação de balsas no rio Tapajós e no protesto no interior da Cargill no último final de semana, em resposta a uma ordem judicial de desocupação do terminal portuário, concedida a pedido da empresa.

“A gente não veio para cá para ficar com medo de governo, de juiz e de empresas”, afirma.

“A gente teve que fazer esse enfrentamento em lugar que antigamente era nosso. Eu me arrepiava todos os dias e pensava: ‘tem alguma coisa muito séria aqui’. Quando meus parentes chegaram, também sentiram. Por mais que tenha concreto no chão, os espíritos ainda estão vivos, eles resistem e pedem socorro. As empresas chegam aqui, não consultam e derrubam locais sagrados.”

No dia 6 de fevereiro, o governo federal já havia suspendido a licitação que habilitou uma empresa para a dragagem do rio Tapajós, após as manifestações.

Como mostrou a Folha, o governo Lula selecionou uma firma para dragagem a um custo de R$ 61,8 milhões sem obter a licença ambiental —e sem protocolar um pedido com esse propósito— para a retirada de material em sete pontos do rio, entre Itaituba e Santarém.

Documentos da Semas (Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade) do Governo do Pará, do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) apontam impactos considerados “significativos” a partir de dragagem no Tapajós.

Entre esses impactos estão alteração da qualidade da água, assoreamento do leito do rio, prejuízo à pesca, alteração de rotas de transporte usadas por comunidades ribeirinhas e indígenas, risco de insegurança alimentar nessas comunidades e alteração em ciclos de reprodução da tartaruga-da-amazônia, numa área que é a segunda maior em reprodução da espécie.

Agora a avaliação do Palácio do Planalto é que o presidente Lula não vai voltar a discutir o programa de concessões de hidrovias nos rios da amazônia, segundo apuração da coluna Painel. A tensão estava crescendo e poderia haver uma ruptura do governo com uma base social importante em ano eleitoral.

Por Folha de São Paulo

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